Ó MARIA CONCEBIDA SEM PECADO, ROGAI POR NÓS QUE RECORREMOS A VÓS!

segunda-feira, 9 de dezembro de 2019


A IMACULADA CONCEIÇÃO DE MARIA E O MUNDO



A Imaculada Conceição

A esta criatura dileta entre todas, superior a tudo quanto foi criado, e inferior somente à Humanidade Santíssima de Nosso Senhor Jesus Cristo, Deus conferiu um privilégio incomparável, que é a Imaculada Conceição.
Em virtude do pecado original, a inteligência humana se tornou sujeita a errar, a vontade ficou exposta a desfalecimentos, a sensibilidade ficou presa das paixões desregradas, o corpo por assim dizer foi posto em revolta contra a alma.
Ora, pelo privilégio de sua Conceição Imaculada, Nossa Senhora foi preservada da mancha do pecado original desde o primeiro instante de seu ser. E, assim, nela tudo era harmonia profunda, perfeita, imperturbável. O intelecto jamais exposto a erro, dotado de um entendimento, uma clareza, uma agilidade inexprimível, iluminado pelas graças mais altas, tinha um conhecimento admirável das coisas do Céu e da terra. A vontade, dócil em tudo ao intelecto, estava inteiramente voltada para o bem, e governava plenamente a sensibilidade, que jamais sentia em si, nem pedia à vontade algo que não fosse plenamente justo e conforme à razão. – Imagine-se uma vontade naturalmente tão perfeita, uma sensibilidade naturalmente tão irrepreensível, esta e aquela enriquecidas e super-enriquecidas de graças inefáveis, perfeitíssimamente correspondidas a todo o momento, e se pode ter uma ideia do que era a Santíssima Virgem. Ou antes se pode compreender por que motivo nem sequer se é capaz de formar uma ideia do que a Santíssima Virgem era.

Inimicitias ponam

Dotada de tantas luzes naturais e sobrenaturais, Nossa Senhora conheceu por certo a infâmia do mundo em seus dias. E com isto amargamente sofreu.
Pois quanto maior é o amor à virtude tanto maior é o ódio ao mal.
Ora, Maria Santíssima tinha em si abismos de amor à virtude, e, portanto, sentia forçosamente em si abismos de ódio ao mal. Maria era pois inimiga do mundo, do qual viveu alheia, segregada sem qualquer mistura nem aliança, voltada unicamente para as coisas de Deus.
O mundo, por sua vez, parece não ter compreendido nem amado Maria. Pois não consta que lhe tivesse tributado admiração proporcionada à sua formosura castíssima, à sua graça nobilíssima, a seu trato dulcíssimo, à sua caridade sempre exorável, acessível, mais abundante do que as águas do mar e mais suave do que o mel.
E como não haveria de ser assim? Que compreensão poderia haver entre Aquela que era toda do Céu, e aqueles que viviam só para a terra? Aquela que era toda fé, pureza, humildade, nobreza, e aqueles que eram todos idolatria, ceticismo, heresia, concupiscência, orgulho, vulgaridade? Aquela que era toda sabedoria, razão, equilíbrio, senso perfeito de todas as coisas, temperança absoluta e sem mácula nem sombra, e aqueles que eram todos desmando, extravagância, desequilíbrio, senso errado, cacofônico, contraditório, berrante a respeito de tudo, e intemperança crônica, sistemática, vertiginosamente crescente em tudo? Aquela que era a fé levada por uma lógica adamantina e inflexível a todas as suas consequências, e aqueles que eram o erro levado por uma lógica infernalmente inexorável, também a suas últimas conseqüências? Ou aqueles que, renunciando a qualquer lógica, viviam voluntariamente num pântano de contradições, em que todas as verdades se misturavam e se poluíam na monstruosa interpenetração de todos os erros que lhe são contrários?
"Imaculado" é uma palavra negativa. Ela significa etimologicamente a ausência de mácula, e pois de todo e qualquer erro por menor que seja, de todo e qualquer pecado por mais leve e insignificante que pareça. É a integridade absoluta na fé e na virtude. É portanto a intransigência absoluta, sistemática, irredutível, a aversão completa, profunda, diametral a toda a espécie de erro ou de mal. A santa intransigência na verdade e no bem é a ortodoxia, a pureza, enquanto em oposição à heterodoxia e ao mal. Por amar a Deus sem medida, Nossa Senhora correspondentemente amou de todo o Coração tudo quanto era de Deus. E porque odiou sem medida o mal, odiou sem medida Satanás, suas pompas e suas obras, o demônio, o mundo e a carne. Nossa Senhora da Conceição é Nossa Senhora da santa intransigência.
Postal do Primeiro Centenário do Dogma da
Imaculada Conceição de Maria

Verdadeiro ódio, verdadeiro amor

Por isto, Nossa Senhora rezava sem cessar. E segundo tão razoavelmente se crê, Ela pedia o advento do Messias, e a graça de ser uma serva daquela que fosse escolhida para Mãe de Deus. Pedia o Messias, para que viesse Aquele que poderia fazer brilhar novamente a justiça na face da terra, para que se levantasse o Sol divino de todas as virtudes, espancando por todo o mundo as trevas da impiedade e do vício. Nossa Senhora desejava, é certo, que os justos vivendo na terra encontrassem na vinda do Messias a realização de seus anseios e de suas esperanças, que os vacilantes se reanimassem, e que de todos os países, de todos os abismos, almas tocadas pela luz da graça levantassem voo para os mais altos píncaros da santidade. Pois estas são por excelência as vitórias de Deus, que é a Verdade e o Bem, e as derrotas do demônio, que é o chefe de todo erro e de todo mal. A Virgem queria a glória de Deus por essa justiça que é a realização na terra da Ordem desejada pelo Criador. Mas, pedindo a vinda do Messias, Ela não ignorava que este seria a Pedra de escândalo, pela qual muitos se salvariam e muitos receberiam também o castigo de seu pecado. Este castigo do pecador irredutível, este esmagamento do ímpio obcecado e endurecido, Nossa Senhora também o desejou de todo o Coração, e foi uma das conseqüências da Redenção e da fundação da Igreja, que Ela desejou e pediu como ninguém, "Ut inimicos Sanctae Ecclesiae humiliare digneris, Te rogamus, audi nos", canta a Liturgia. E antes da Liturgia por certo o Coração Imaculado de Maria já elevou a Deus súplica análoga, pela derrota dos ímpios irredutíveis.
Admirável exemplo de verdadeiro amor, de verdadeiro ódio.

Onipotência Suplicante

Deus quer as obras. Ele fundou a Igreja para o apostolado. Mas acima de tudo quer a oração. Pois a oração é a condição da fecundidade de todas as obras. E quer como fruto da oração a virtude.
Rainha de todos os apóstolos, Nossa Senhora é entretanto principalmente o modelo das almas que rezam e se santificam, a estrela polar de toda meditação e vida interior. Pois, dotada de virtude imaculada, Ela fez sempre o que era mais razoável, e se nunca sentiu em si as agitações e as desordens das almas que só amam a ação e a agitação, nunca experimentou em si, tampouco, as apatias e as negligências das almas frouxas que fazem da vida interior um para-vento a fim de disfarçar sua indiferença pela causa da Igreja. Seu afastamento do mundo não significou um desinteresse pelo mundo. Quem fez mais pelos ímpios e pelos pecadores do que Aquela que, para os salvar, voluntariamente consentiu na imolação crudelíssima de seu Filho infinitamente inocente e santo? Quem fez mais pelos homens, do que Aquela que conseguiu se realizasse em seus dias a promessa do Salvador?
Mas, confiante sobretudo na oração e na vida interior, não nos deu a Rainha dos Apóstolos uma grande lição de apostolado, fazendo de uma e outra o seu principal instrumento de ação?

Aplicação a nossos dias

Tanto valem aos olhos de Deus as almas que, como Nossa Senhora, possuem o segredo do verdadeiro amor e do verdadeiro ódio, da intransigência perfeita, do zelo incessante, do espírito de renúncia completo, que propriamente são elas que podem atrair para o mundo as graças divinas.
Estamos numa época parecida com a da vinda de Jesus Cristo à terra. Em 1928 escreveu o Santo Padre Pio XI que “o espetáculo das desgraças contemporâneas é de tal maneira aflitivo, que se poderia ver nele a aurora deste início de dores que trará o Homem do pecado, elevando-se contra tudo quanto é chamado Deus e recebe a honra de um culto (Enc. Miserentissimus Redemptor, de 8 de maio de 1928).

Que diria ele hoje?

E a nós, que nos compete fazer? Lutar em todos os terrenos permitidos, com todas as armas lícitas. Mas antes de tudo, acima de tudo, confiar na vida interior e na oração. É o grande exemplo de Nossa Senhora.
O exemplo de Nossa Senhora, só com o auxílio de Nossa Senhora se pode imitar. E o auxílio de Nossa Senhora só com a devoção a Nossa Senhora se pode conseguir. Ora, a devoção a Maria Santíssima no que de melhor pode consistir, do que em Lhe pedirmos não só o amor a Deus e o ódio ao demônio, mas aquela santa inteireza no amor ao bem e no ódio ao mal, em uma palavra aquela santa intransigência, que tanto refulge em sua Imaculada Conceição?


_________Plinio Corrêa de Oliveira


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FONTE: excertos do artigo publicado na revista Catolicismo n. 54 - Setembro de 1954, sob o título “A Santa Intrangigência: Um Aspecto da Imaculada Conceição” – O título é nosso. Texto revisto e atualizado, com destaques acrescentados.


quinta-feira, 28 de novembro de 2019


28 DE NOVEMBRO – FESTA DE SANTA CATARINA LABOURÉ, A VIDENTE DA MEDALHA MILAGROSA

Santa Catarina Labouré (fotografia com seu autógrafo)

Catarina Labouré era uma mulher muito humana, uma santa próxima de nós. Sua vida foi ao mesmo tempo extraordinariamente simples e extraordinariamente notável. Ela tem verdadeira paixão por Deus, pela Santíssima Virgem, por São Vicente e pelos Pobres. Sua personalidade é excepcionalmente rica por sua simplicidade e humildade.
- (Cronologia)
1806, 2 de maio - nascimento em Fain-les-Moutiers
1815 - morte de sua mãe
1830, 21 de abril - entrada no Seminário das Filhas da Caridade, em Paris
1830, 19 de julho e 27 de novembro - principais aparições da Santíssima Virgem
1831 - Início de sua missão no asilo de Enghien, em Paris
1876, 31 de dezembro - morte de Catarina Labouré
1933 - transferência de seu corpo à Capela da Casa Mãe
1933, 22 de maio - beatificação
1947, 27 de julho - canonização pelo Papa Pio XII
28 de novembro dia da festa
Catarina era uma camponesa da Borgonha, a oitava filha de uma família de 10 filhos. Órfã aos 9 anos, ela decide substituir a mãe que acabava de perder por nossa Mãe do céu: Maria. Este gesto de fé será o acontecimento fundamental de sua relação privilegiada com o “Céu”.
Catarina fez sua primeira comunhão em 25 de janeiro de 1818, na igreja de Moutiers-Saint-Jean e tornou-se “muito mística” de acordo com a percepção de Tonine, sua irmã. Desde a idade de 12 anos de idade, ela é a colaboradora mais próxima de seu pai na fazenda. Sobrecarregada de ocupações, trabalha sem descanso, fortificando assim, seu temperamento ativo e sua capacidade de suportar o cansaço. Todos os dias, Catarina reza longamente. Antes de começar o dia, encontra uma maneira de participar da missa na igreja de Moutiers-Saint-Jean. Aos 13 anos, Catarina é tão “contemplativa” quanto “dona de casa”.
Santa Catarina distribuindo as Medalhas
Milagrosas

Por volta dos 15 ou 16 anos, ela tem um sonho estranho, um desses sonhos que no Evangelho chama-se visão, e não compreende o seu significado a não ser mais tarde. Catarina foi visitada por São Vicente de Paulo que a convidou a segui-lo.
Aos 18 anos ela expressa ao pai seu desejo de entrar para as Filhas da Caridade. Este não aceita e pretende fazê-la mudar de ideia enviando-a para Paris como cozinheira e criada no restaurante popular de seu irmão.
Quando Catarina completa 22 anos, o pai acaba cedendo ao seu desejo vocacional. Em abril de 1830, ela entra no Seminário, na Casa Mãe de Paris, rua du Bac. Admira muito São Vicente de Paulo e busca na oração força, paciência e orientação. Sorridente e alegre está sempre pronta a acolher as pessoas e procura realizar bem o trabalho cotidiano.
Desde sua chegada ao Seminário, Catarina é beneficiada, primeiro, com visões pessoais (do coração de São Vicente e de Nosso Senhor na Eucaristia), depois com duas aparições marianas que são uma mensagem de evangelização para a Igreja e o mundo. Essas duas aparições de 18 de julho e 27 de novembro são inseparáveis: a primeira prepara a segunda que, certamente, é de uma importância capital – Maria Imaculada confia ao mundo sua Medalha. Por este sinal, Maria revela sua Conceição Imaculada; o reverso da Medalha apresenta símbolos que mostram Maria intimamente ligada aos mistérios da Encarnação e da Redenção.
Para Catarina, Deus não é uma ideia, mas uma presença: Jesus Cristo, Deus feito homem entre os homens e entre os pobres. No final de janeiro de 1831, enviada ao serviço dos idosos do asilo de Enghien, dos pobres do bairro, dos aflitos, dos enlutados, dos marginalizados… ali serve incansavelmente durante 46 anos. Ela é para todos um oásis de paz, tratando seus idosos, particularmente, os mais desagradáveis, com delicadeza e bondade raras. Dá também atenção privilegiada aos doentes e agonizantes os quais vela habitualmente e nos quais reconhece o rosto de Cristo. Catarina não é somente uma “vidente”, mas também e, sobretudo, uma “mulher de fé”, revelando-se heroica em situações imprevistas e difíceis, principalmente durante a Comuna: tudo por Deus.
Corpo incorrupto de Santa Catarina Labouré,
 sob o altar da Virgo Potens (a Virgem do Globo)
Nos primeiros dias do ano de 1877, Irmã Catarina é enterrada sob a casa de Reuilly. Foi canonizada 70 anos após a sua morte. Em 1933, o corpo de Catarina é transferido para a Capela da rua du Bac e colocado sob o altar da Virgem com o globo. Assim, ela aparece como a primeira testemunha de um novo tipo de santidade, sem glória nem triunfos humanos, que o Espírito Santo começava a suscitar para os tempos modernos.


NOTA: Para saber mais sobre a vida e obra de Santa Catarina Labouré, e orações a ela dedicadas, VIDE AQUI.




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FONTE: Filhas da Caridade de São Vicente de Paulo (texto revisto).