Ó MARIA CONCEBIDA SEM PECADO, ROGAI POR NÓS QUE RECORREMOS A VÓS!
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segunda-feira, 28 de dezembro de 2020

A ADMIRAÇÃO E TERNURA DE NOSSA SENHORA POR SEU FILHO RECÉM-NASCIDO

A ADMIRAÇÃO E TERNURA DE NOSSA SENHORA POR SEU FILHO RECÉM-NASCIDO


No Natal, é natural que nossa atenção se volte para a festa do nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo. Foi esta a ocasião em que, no grau mais elevado, o amor de uma criatura se manifestou por Deus, o Criador – o afeto da Mãe celeste por seu Filho único e incomparável.

Como Nossa Senhora é o modelo de humildade por excelência, não se aproximou do Divino Salvador sem ter manifestado todo o respeito e toda a admiração que Ele merece. Como a criatura mais requintada da Criação, ela não pôde deixar de assumir essa humilde posição perante o Salvador. Estando infinitamente abaixo do Criador, embora seja a criatura mais elevada, dirigiu-se a Nosso Senhor como se fosse a menor das Suas criaturas.

Imaginemos uma pessoa que pensa estar mais perto do sol porque é dez centímetros mais alta que o homem normal. Isso é ridículo, já que dez centímetros não são nada comparados à distância da Terra ao sol. Deus sendo infinito, mesmo a grande distância que nos separa de Nossa Senhora é pequena ao lado da que a separa de Deus. Assim, podemos compreender os muitos atos de humildade que ela fez na presença da Criança Divina.

Uma humildade voltada não para si mesma, mas para Deus.

Sua ação não veio de uma humildade egocêntrica, mas centrada em Deus. Em vez de pensar em sua condição limitada de criatura, ela considerou a infinita grandeza de Deus. Portanto, na gruta de Belém, seus primeiros afetos foram atos de admiração, manifestando tudo o que ela admirava em seu Filho Divino como Deus-Homem.

Nisto existe uma ordem lógica. Quando amamos muito alguém, devemos começar por admirá-lo. Não é sentimentalismo, como uma criança admirando sua boneca, por exemplo, mas a admiração que é a base do amor. Amava aquele Menino recém-nascido, sabendo que era a mais admirável de todas as criaturas, hipostaticamente unido ao Verbo Divino.

Por uma revelação sobrenatural, Maria sabia que o Filho gerado nela era o Filho de Deus. Tão frágil e minúsculo, mas Deus em Sua infinita grandeza, em Sua incomensurável admirabilidade! Seu primeiro pensamento provavelmente foi voltado para o aspecto mais grandioso do Ser Divino; só então seus pensamentos se voltaram para a Criança. Com isso veio o amor materno, contemplando em seu olhar Deus, que ali se refletia. Nossa Senhora olhou para o Seu corpinho, tocou-Lhe os braços e sentiu que estavam frios do inverno. Assim ela expressou a ternura de mãe.

Alguém poderia objetar que nesse momento a admiração desapareceu e apenas o afeto se manifestou. Isso não é verdade, porque no momento em que a admiração morre, o afeto desaparece – assim como a admiração se extingue no momento em que o afeto morre.

Admiração e afeição da mãe pelo filho

Quando uma mãe dá à luz um filho, esse bebê é tão encantador que é tomado por uma grande ternura. No subconsciente da mãe verdadeiramente católica, passa o seguinte: Este recém-nascido é como um anjo. Quanta grandeza há em um ser humano chamado a uma vida longa, com seus sérios deveres para com Deus: ser um bom filho da Igreja Católica; dominar suas paixões, para se santificar e ir para o céu por toda a eternidade. Que extraordinário! Estou profundamente comovido, vendo como uma chamada tão grande está contida neste pequeno recém-nascido!

Com esta consideração vem uma ternura muito grande, mas também uma grande admiração: Que mistério admirável é que eu, um ser humano, gerei outro ser humano! Ele foi formado em meu ventre, nasceu para mim, foi alimentado por mim. Eu o libertei para a vida, e aqui está ele, tão pequeno. Em sua própria existência existe um mistério imenso!

Mistérios da infusão da alma por Deus

Quanto à Santa Mãe de Deus, podemos pensar na hora em que Deus, curvando-se sobre aquele embrião, soprou nele uma alma, dando algo que a mãe não gerou, que não procede ao ato nupcial, mas do Criador. Que coisa magnífica é esta!

Nossa Senhora ponderou sobre o grande mistério da vida de Cristo

Na ternura de uma mãe verdadeira e bem orientada para com o filho, surge toda esta série de mistérios que se passavam nela. O nascimento de outra criatura que é carne de sua carne e sangue de seu sangue, “outro eu mesmo”, outro ser sobre quem Deus soprou uma alma imortal. Ou seja, a obra de Deus foi adicionada à obra da mãe para algo muito maior.

Este vínculo de alma abre os horizontes para aquela criança: horizontes de luta, dedicação, alegria e vitória. Mas também horizontes de tristeza, recuo e fraquezas, quando se deve pedir a Deus graças para apoiá-lo.

Nisto vemos outro aspecto do nascimento de uma criança simples. Para a Igreja, a vida de toda criatura é comparável a de um herói que se prepara com exercícios para a luta, para poder enfrentar a vida e se engajar no combate, de um herói que empunha suas armas e escudo para entrar no arena da vida.

É o início de uma grande batalha, e assim a mãe poderia dizer a um filho: Meu guerreiro, eu te admiro porque você está lutando o bom combate! Este é o seu dever. Depois de receber o batismo, a graça vai chamá-lo e começar uma vida sobrenatural em você, mais ou menos como uma vela que alguém acende. Quanto isso iluminará sua alma? Quanto bem você fará? Que glória você dará a Deus?

Reflexões sobre a vida pública do Divino Redentor

Naquela noite, a Santíssima Virgem provavelmente estava pensando em como a vida pública de seu Divino Filho começaria, os milagres que Ele faria, as almas que Ele atrairia. Ela pensava no que resultaria disso, em como Ele começaria a ser rejeitado pelos judeus, esquecido pelos próprios apóstolos por causa de sua brandura e até traído por Judas.

Ela provavelmente também refletiu sobre Pentecostes, a expansão da Igreja por toda a bacia do Mediterrâneo e os lugares misteriosos por onde os Apóstolos caminhariam, enchendo a Terra com sua presença. Ela meditou sobre a libertação da Igreja pelo imperador Constantino; na Igreja que brilharia em todo o mundo; sobre a invasão dos bárbaros e da civilização decorrente de sua conversão; e, a seguir, em São Bento, que em Subiaco se tornaria o Patriarca do Ocidente e implantaria uma nova vida espiritual da qual nasceria a Idade Média.

Ela provavelmente teria lamentado que, no final do período medieval, em uma contestação à obra de São Bento, um imenso pecado fosse cometido e daria início à Revolução, que levantaria ondas de feridas atrozes: o Renascimento, Humanismo e Protestantismo. Daí viria a Revolução Francesa, o Comunismo e a Revolução Anarquista, também conhecida como Revolução Cultural – enigmática, difícil de definir em seus verdadeiros contornos, infame em tudo o que dela já conhecemos.

Nossa Senhora refletiria sobre tudo isso. Mas ela também se alegraria que, por seu desígnio, sobre este mar de imundície uma pétala de rosa – a Contra-Revolução – começasse a flutuar em determinado momento, atraindo seus filhos fiéis para lutar por ela em nosso século.

Um exame de consciência e uma oração

Ao pé do presépio, pode-se voltar a analisar sua própria história individual: como a graça de Deus foi aceita por sua alma, os altos e baixos, sua correspondência à graça e rejeições dela, seus movimentos de orgulho e sensualidade, ou vitórias, e, às vezes, derrotas, mas sempre o papel da misericórdia de Deus esforçando-se para nos levar ao caminho certo.

Nossa Senhora previu que alguns cairiam no caminho; ela esperaria a oração dos que permanecem pelos que caíram; e de vez em quando ela conseguia trazer um filho de volta ao caminho certo. Ela também viu de antemão a sua intervenção final e a implantação do Reino de Maria que ela revelou em Fátima em 1917.

Devemos considerar tudo isso quando estivermos aos pés do presépio e dizer: Ó Menino Jesus, Tu és a pedra divisória, a rocha do escândalo que divide a história em duas partes. Hoje, tudo o que está contigo é a contra-revolução, tudo o que está contra ti é a revolução.

Podemos levantar esta oração como veneramos no presépio: Aqui está um filho, Nosso Senhor Jesus Cristo, trazido a Ti pela graça de Tua Mãe celestial, por suas orações, por seu ventre. Aqui está um filho ajoelhado diante de Ti para te agradecer e para se apresentar a Ti como um guerreiro pronto para lutar por Ti na Contra-Revolução, confiante na tua graça.




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FONTE: in Catholic Restoration - Tradução Google Tradutor - Destaques acrescidos.

sábado, 14 de novembro de 2020

UMA PORTA DO CÉU SE ABRIU PARA O MUNDO

 UMA PORTA DO CÉU SE ABRIU PARA O MUNDO

A Capela das aparições em seu estado atual


Quem visita a Capela da Rue du Bac, em Paris, onde Nossa Senhora apareceu, sente-se envolvido por uma intensa impressão de paz, de calma, de céus abertos, como se não existissem obstáculos entre a terra e a feliz eternidade.

As aparições da Santíssima Virgem a Santa Catarina Labouré se deram em 1830, sendo a mais importante delas no dia 27 de novembro, quando Maria Santíssima revelou os tesouros de dádivas celestiais destinados ao mundo com a difusão da Medalha Milagrosa.

Cumpre recordarmos que, naquela época, a par de um grande reflorescimento da prática da Religião Católica, havia também fortes manifestações de laicismo e ateísmo hostis à Igreja, de maneira que um fosso abismal separava o Catolicismo do anticlericalismo. Ecos dessa animosidade eu mesmo conheci, no Brasil dos anos 20. Portanto, quase um século depois das aparições da Rue du Bac.

Tão profundo era esse valo divisório entre as coisas da Igreja e as da sociedade civil que, ao se transpor os umbrais do ambiente profano e ingressar no religioso, era como se deixássemos um país para entrar em outro. Lembro-me de quando comparecia à bênção do Santíssimo Sacramento na Igreja do Coração de Jesus, após a qual, saindo do templo, observava o edifício daquilo que então era o internato do Liceu,[1] desdobrado em duas alas em torno de todo o quarteirão.

As janelas dos andares inferiores permaneciam fechadas e protegidas por grades. Ao contrário daquelas dos andares superiores através das quais, no lado onde eu sabia estar situado o dormitório dos meninos, podia-se ver algumas luzes azuis acesas: sinal de que as crianças já dormiam. E o relógio da torre ainda não marcava nove horas da noite…

Recordo-me da impressão que causava em mim o entrar na sociedade profana – insisto, dos anos 20 – e perceber o contraste entre o coruscante, o assanhado, o divertido daquele mundo, e o dormitório extenso, onde um grande número de meninos repousava.

Alegrava-me ver que, enquanto todos se achavam imersos no sono noturno, as luzinhas azuis simbolizavam a maternalidade da Igreja a envolver seus filhos em brumas amigas; a vigilância de quem sabe sorrir sem fechar os olhos, sempre ciente do que se passa. Tudo isso me dava a impressão de haver naquele ambiente uma austeridade, uma sacralidade, uma ordenação que o mundo fora não conhecia. Era outro universo.

Pois bem, numa atmosfera análoga a essa tiveram lugar, na Paris de 1830, as revelações de Nossa Senhora a Santa Catarina Labouré.

Ambiente modesto, puro e elevado

Era esta uma freira da Congregação das Filhas da Caridade, fundada por Santa Luísa de Marillac e São Vicente de Paulo. Essas religiosas se distinguiram sempre por sua extrema e abnegada solicitude cristã, dedicando-se ao cuidado dos pobres, órfãos e enfermos nos hospitais e Casas de Misericórdia. Até há pouco eram conhecidas pelo seu hábito característico: túnica escura com gola branca engomada, a cabeça adornada por uma touca bretã, estilizada pela inspiração e pelas mãos da Igreja. Essa cobertura se desdobrava em duas abas largas, lembrando vagamente as asas de uma gaivota em voo. Na cintura, como é natural nos hábitos religiosos, pendia um grande rosário.

Não tive contato assíduo com essas freiras, mas encontrei-me com muitas delas. Em geral pessoas robustas, fortes e prontas para o trabalho. Olhar límpido, reto, atitude despretensiosa de quem preferia passar desapercebida. Realizavam obras de misericórdia temporal como ocasião para obras de misericórdia espiritual.

A elevação desse apostolado das Irmãs de Caridade de São Vicente de Paulo era tão grande, e as admiravam tanto por isso, que costumavam ser tidas como o próprio símbolo da Religião numa de suas expressões mais belas e comovedoras.

O seu principal convento situa-se num antigo e aristocrático bairro da capital francesa, o Faubourg Saint-Germain, e se tornou conhecido pelo nome da rua em que foi edificado: Rue du Bac.

Devemos imaginar a cidade de Paris nos idos de 1830, bem menor e menos populosa do que é hoje, silenciosa, tranquila, ainda sem ruídos de motores e luzes de néon. Podemos pensar na rua calçada com pedras, sobre as quais, vez por outra, o eco das patas de um cavalo ou das rodas de uma carruagem interrompia a longa calada da noite. No dormitório das freiras de São Vicente não havia luzinhas azuis, mas talvez alguns candeeiros acesos. Todas as religiosas repousam, entre elas Santa Catarina Labouré.

Nesse ambiente modesto, puro e elevado, completamente diverso do mundo exterior, o maravilhoso sobrenatural começa a se desenrolar.

Aparição de Nossa Senhora 
a Santa Catarina Labouré – Santuário
da Medalha Milagros, Paris.

Colóquios com a Rainha do Céu


A primeira aparição ocorreu em 18 de julho de 1830, como que preparada por uma atitude da vidente repassada de ingenuidade, inocência e caráter filial muito bonitos. Ela ouvira no dia anterior uma exposição sobre a devoção a Nossa Senhora, sentiu um ardente desejo de vê-La e deitou-se pensando que, naquela mesma noite, encontrar-se-ia com a Santíssima Virgem.


Foi exatamente o que aconteceu. Como nos relata a própria Santa Catarina Labouré, por volta das onze e meia da noite, ela ouve alguém lhe chamar. Corre a cortina de seu leito e vê um menino de quatro ou cinco anos que lhe diz: “Vinde à capela, a Santíssima Virgem vos espera”.

A santa demonstra um pouco de receio, temendo que as outras religiosas a surpreendessem fora da cama, mas o menino a tranquiliza; ela se veste e começa a segui-lo pelos corredores do convento. Detalhe curioso, registrado pela vidente que muito se admirou do fato: por todos os lugares onde passaram as candeias estavam acesas.

Ela entra na capela e sua surpresa é ainda maior ao notar todas as velas acesas nos candelabros, como se estivessem preparados para uma Missa do Galo. O menino a conduz até o presbitério; ao lado da cadeira em que se sentava o vigário Santa Catarina se ajoelhou, enquanto a criança permaneceu de pé. Ela, sempre com o receio de que alguma freira passasse por ali e os encontrasse, pedindo-lhe explicações que não saberia dar…

Afinal, o menino lhe advertiu: “Eis a Santíssima Virgem”. A vidente ouviu um frou-frou, um roçagar de vestido de seda, mas ainda não distinguia Nossa Senhora. Então o menino insistiu – já não com voz de criança, mas em tom vigoroso – que a Rainha do Céu estava presente. Nesse momento Santa Catarina viu a Mãe de Deus sentada na cadeira do vigário, deu um salto para junto d’Ela e, genuflexa, apoiou suas mãos nos joelhos de Maria.

Quer dizer, uma cena fabulosa, uma aparição cercada de afabilidade extraordinária. Compreende-se, pois, que Santa Catarina tenha registrado esse instante como o mais doce de sua vida, impossível de ser descrito em palavras. Recebeu ali diversos conselhos e orientações de Nossa Senhora, os quais preferiu manter em sigilo.

A Medalha Milagrosa

A Medalha Milagrosa

Podemos bem conceber como Santa Catarina se sentiu após esse encontro com Nossa Senhora, e como seu coração latejava de um intenso desejo de revê-La. Alguns meses depois, ela seria largamente atendida. O segundo e mais importante encontro se deu na tarde do sábado 7 de novembro de 1830. Assim o relata um cronista das diversas aparições de Maria:

Na sua capela da Rue du Bac, as Filhas da Caridade – Irmãs e noviças – se reúnem para a meditação vespertina. Recolhimento e religioso silêncio. De repente, em meio à sua piedosa contemplação, Catarina Labouré julga ouvir o roçar de um vestido de seda… A Santíssima Virgem, ali!

Qualquer pensamento é impossível diante da inconcebível beleza de Maria. Ela usa um vestido de seda alvíssima como a aurora. Da mesma cor é o véu que Lhe desce da cabeça até os pés. Estes repousam sobre volumoso globo, que parece fixo num ponto do espaço. As mãos, elevadas à altura do peito, sustentam graciosamente um outro globo, menor que o pedestal e encimado por uma cruz. A Virgem tem o olhar voltado para o céu. Seus lábios oram. Ela oferece o globo ao Mestre, seu Filho.

De súbito o globo desaparece e as mãos permanecem estendidas. Os dedos se cobrem de anéis guarnecidos de cintilantes pedrarias, que emitem raios deslumbrantes para todos os lados. Mil fulgores preciosos se fundem num só brilho transcendente. Mil irradiações circundam a santa figura.

A Virgem pousa os olhos sobre Catarina em contemplação, abismada num mundo de sensações, de sentimentos, de descobertas, de revelações inexprimíveis. No fundo de seu coração, a noviça ouve uma voz que lhe diz:

Este globo representa o mundo inteiro, e especialmente a França, e cada homem em particular.

A chuva de raios redobra em força, em magnificência.

Eis o símbolo das graças que Eu derramo sobre aqueles que mais pedem. As pedras que permanecem na sombra (dirá ainda, uma outra vez, a Santíssima Virgem) simbolizam as graças que se esquecem de Me pedir…[2]

Segundo narração de Santa Catarina, formou-se em torno de Nossa Senhora um quadro de forma ovalada, no alto do qual estavam escritas em letras de ouro as seguintes palavras: “Ó Maria concebida sem pecado, rogai por nós que recorremos a Vós”. E novamente ela ouviu uma voz que lhe mandava cunhar uma medalha conforme aquele modelo. E a promessa: “Todos os que a usarem, trazendo-a ao pescoço, receberão grandes graças, que serão abundantes para quem a portar com confiança.

Em seguida, diz a vidente, o quadro pareceu girar e ela viu o reverso da medalha: no centro, o monograma da Santíssima Virgem, composto pela letra M encimada por uma cruz, a qual tinha uma barra em sua base. Embaixo, os Corações de Jesus e de Maria, o primeiro coroado de espinhos, e o outro, transpassado por um gládio.

Era o desenho da Medalha Milagrosa, como esta seria amplamente conhecida e difundida pelo mundo inteiro, alcançando graças e favores celestiais para incontável número de pessoas, milagres de ordem física, como a cura de doenças, e também de ordem espiritual, reformas de vida e conversões das mais inesperadas.

Altar-mor da Capela

Desígnios de alta misericórdia para o mundo

Lembro-me, por exemplo, deste fato. Uma senhora da aristocracia francesa mantinha no salão nobre de sua residência, magnificamente decorado, um quadro com a Medalha Milagrosa, manchada e amassada no centro. Os visitantes que ela recebia em casa estranhavam aquilo exposto com tanta evidência num recinto esplêndido, em meio a objetos de alta categoria, e perguntavam a razão disso. A senhora respondia:

Guardo esta medalha porque meu filho era um estroina, e estando num mau lugar, levou um tiro. A bala acertou diretamente na medalha, e em vez de perfurá-la, de modo inexplicável apenas a danificou, como para autenticar o fato extraordinário, e caiu no chão. Diante do prodígio, meu filho se converteu e hoje é um católico modelar. Eu desejo, então, que minhas visitas conheçam este favor recebido de Nossa Senhora e saibam agradecer. Por isso esta medalha está aqui.

É simplesmente incontável o número de episódios semelhantes onde foram obtidas graças preciosas através da Medalha Milagrosa, motivo pelo qual ela é objeto de tanta devoção, tendo sido destinada por Maria Santíssima a ser um maravilhoso meio de se realizarem desígnios de sua alta misericórdia para o mundo.

Expressão do carinho materno de Maria

É interessante frisar, ainda, que essa particular proteção da Virgem Santíssima em relação a nós transparece muito na sua prerrogativa de Mãe da Divina Graça.

Quantos já não nos sentimos, ao nos aproximarmos de uma imagem sob essa invocação, recebidos por um sorriso d’Ela, envolvidos por uma espécie de doçura que nos prometia compaixão, pena, a convicção de sermos atendidos e favorecidos por um ato de inesgotável bondade?

É a certeza de que Nossa Senhora sempre se acha disposta a nos socorrer e amparar com sua clemência, seja em nossas carências materiais e físicas, seja marcadamente em nossas lacunas espirituais, ajudando-nos a vencer nossos defeitos, as tentações e o pecado. Portanto, Nossa Senhora das Graças podia se dizer Nossa Senhora da Misericórdia, que nunca, nunca, nunca nos deixará desamparados.

E creio jamais ser suficiente insistir nesta verdade: Mãe da Divina Graça significa a tesoureira de todas as graças de Deus. As dádivas celestiais constituem um tesouro inexaurível, posto nas mãos de Nossa Senhora e por Ela difundido àqueles que recorrem à sua intercessão.

Maria é a dispensadora de todas as graças e também a Mãe dos que Lhe suplicam favores. Mãe dos miseráveis, dos aflitos, daqueles que quase perderam a esperança, aos quais Ela reanima, e faz reacender em seus corações a chama da Fé.

Basta considerarmos uma imagem de Nossa Senhora das Graças para compreendermos o quanto esse título exprime o carinho materno de Maria em relação a nós. Acolhe-nos de braços abertos, o sorriso nos lábios, repassada de um convite amorável para nos aproximarmos e convivermos um pouco com Ela. Envolve-nos com uma afabilidade e uma promessa de perdão sem limites, insondável. E nos faz ouvir no fundo da alma a sua voz carinhosa: “Tendes a Mim, sou inteiramente sua. E por causa disso, todos os caminhos para o Céu lhe são franqueados… (Extraído, com pequenas adaptações, de Dr. Plinio. Ano VIII. N.092 [nov., 2005]; p.18-25)





- Notas

[1] Colégio dos salesianos contíguo ao Santuário do Sagrado Coração de Jesus, localizado no bairro dos Campos Elíseos, em São Paulo.

[2] Cf. MOLAINE, Pierre. L’itinéraire de la Vierge Marie. Paris: Corrêa, 1953.



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FONTE: Revista Arautos do Evangelho, Ano XIX, n. 227, Novembro/2020.

terça-feira, 15 de setembro de 2020

VIRGEM IMACULADA, “UMA ESPADA TRANSPASSARÁ TUA ALMA”

 VIRGEM IMACULADA, “UMA ESPADA TRANSPASSARÁ TUA ALMA”

(Hoje, 15 de Setembro, comemora-se Nossa Senhora das Dores ou as Sete Dores de Maria Santíssima)

Quem poderá imaginar ou descrever os transportes de júbilo e alegria que dominam uma jovem mãe, junto ao berço do primogênito?

É tal o êxtase que até parece que sua vida deixa de existir, para dar lugar ao pequenino. Com imensa ternura lhe vai segregando uma e muitas vezes: “Meu querido filhinho ...” Toda a sua existência concentra-se no zelar pelo ente adorado, conservando-lhe, com extremos de carinho, a preciosa vida, educando-o para que um dia possa ser útil à sociedade, galgando posto de destaque e vivendo feliz e honrado por todos.

Para a mãe a felicidade do filho é seu viver e o sofrimento do filho é seu pesar.

Junto da gruta de Belém, na noite de Natal, a Virgem experimenta inefáveis doçuras da maternidade, embalando em seus braços o próprio Deus-Menino e chamando-o, com tanta ternura, seu bem-amado Filhinho. Haverá na terra ou entre os santos e anjos do céu quem possa compreender a divina felicidade da Bendita entre as mulheres, apertando em seu peito o seu diletíssimo Jesus?

Apresentação do Senhor e Purificação
de Maria (Camillo Procaccini)
Maria Santíssima, porém, mesmo nas maravilhas e encantos da maternidade, vividos em torno do Infante Divino, não esquece a palavra dada a Deus, no dia da Anunciação, de que seria sua escrava: escrava para ser Mãe de Deus, escrava para apresentá-lo ao sacrifício, escrava para as dores do Calvário.

Pio X destaca esta santa missão da Virgem admiravelmente, na Encíclica Ad diem illum, de 2 de fevereiro de 1904:

À Virgem Santíssima não somente coube a glória de haver ministrado a substância de sua carne ao Unigênito do Eterno, que devia nascer homem; mas igualmente teve a missão de zelar e conservar esta hóstia e, ao tempo devido, apresentá-la ao sacrifício.

Deus lhe lembra de sua missão, quando apenas volvidos 40 dias do nascimento do Filho, vai ao templo e, numa oferta total, entrega e consagra solene e oficialmente o seu Jesus ao Eterno Padre.

São Lucas nos descreve esta oferta no capítulo II, 22-24, do seu Evangelho:

E concluídos que foram os dias da purificação segundo a lei de Moisés, levaram-no a Jerusalém, para o apresentar ao Senhor, conforme o que foi prescrito na lei do Senhor: “Todo o primogênito do sexo masculino será consagrado ao Senhor”, e para oferecerem em sacrifício, conforme o que foi prescrito na lei do Senhor, um par de rolas ou dois pombinhos.

Maria compreende a diferença essencial que existe entre o seu oferecimento e o das outras mães. Pois estas cumpriam uma cerimônia: ofereciam os filhos, e em seguida os tornavam a receber, pagando o resgate.

Maria sabe que oferece seu Filho para a morte, e que Deus o aceita, e que a morte infalivelmente será executada.

Pela boca do velho Simeão, Deus lhe manifesta que também ela acompanhará os martírios da Vítima com sofrimentos inauditos: pois lhe diz o santo: “E uma espada transpassará a tua própria alma”.

A participação que a Virgem terá nos sofrimentos do Filho, Leão XIII a expõe na encíclica Jucunda semper expectatione, de 8 de setembro de 1894:

Quando se ofereceu a Deus como escreva para a missão dr mãe, ou quando se ofereceu com seu Filho como total holocausto no templo, desde esses fatos, se tornou coparticipante da laboriosa obra de expiação do gênero humano.

Pelo que não se pode duvidar da sua máxima participação, em espírito, das terríveis angústias e sofrimentos do Filho.


Aliás, aquele divino sacrifício, para o qual nutria generosamente do seu sangue a vítima, tinha que consumar-se na sua presença, e à sua vista.

A Mediação Universal exige-lhe uma longa caminhada rumo à cruz; caminhada de trinta e três anos, com seus dias intermináveis de dores e com suas noites prolongadas vigílias.

Embora as riquezas e frutos da Redenção consolem a Virgem e a encorajem, cada vez mais, a se entregar como escrava do Senhor á sua tarefa, contudo, Ela não pode e nem deve esquecer que a Hóstia do sacrifício, que está preparado, é seu próprio Filho.


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FONTE: livro A Medianeira, Pe. Inacio Valle, S.J., Edições Paulinas, 1953, Primeira Parte, pp. 40-43 – Texto revisto e atualizado, com alguns destaques acrescidos.

segunda-feira, 17 de agosto de 2020

MARIA MÃE DA IGREJA E VENCEDORA DOS DEMÔNIOS

MARIA MÃE DA IGREJA E VENCEDORA DOS DEMÔNIOS

Um sinal grandioso apareceu no céu: uma Mulher vestida com o sol, tendo a lua sob os pés e sobre a cabeça uma coroa de doze estrelas. (Apocalipse. 12, 1)


Maria não só teve a missão de ser corredentora, contribuindo com Jesus para restituir ao universo o equilíbrio tão fortemente abalado desde que houve a rebelião de Satanás e dos seus partidários, mas a sua qualidade de corredentora fez dela também a Mãe da Igreja, que ela gerou com Jesus na dor e no amor, e tornou-a também participante, numa medida superabundante, do Seu eterno e real Sacerdócio. Por isso, diante dela se prostram os anjos do Céu, os homens da Terra, e tremem aterrorizados e fogem os demônios do Inferno.

Por imposição de Deus, o próprio demônio, em algumas circunstâncias, foi obrigado a confessar — muito a contragosto… — que a Santíssima Virgem era sua maior inimiga, pois Ela conseguia salvar almas que estavam já em suas garras, praticamente condenadas ao inferno. Nossa Senhora é o Terror dos demônios, Aquela que esmaga a cabeça da serpente infernal, como é representada em muitas de suas imagens – na Medalha Milagrosa, por exemplo. Em seu famosíssimo Tratado da Verdadeira Devoção, São Luís Maria Grignion de Montfort escreve:

Maria é a mais terrível inimiga que Deus armou contra o demônio.

Os demônios não só odeiam Deus, Cristo, a Igreja, a humanidade inteira, como se odeiam uns aos outros; são tiranizados por chefes ferozes e implacáveis. Possuem uma astúcia que é produto da sua inteligência corrompida. Por causa da superioridade da sua natureza, conseguiram, com uma pérfida tenacidade, destruir na alma do homem toda ou quase toda a noção da sua existência, de modo que os homens, na sua quase totalidade, não acreditando na sua existência, cessaram a luta pela qual Jesus Cristo, Verbo de Deus feito Carne, morreu na Cruz. Esta é a verdadeira causa da ruína da Igreja, da grave crise de fé que atormenta os bispos, sacerdotes e fiéis. Os demônios só temem a Deus, a Virgem Santíssima, e os santos (os que vivem e querem viver na graça de Deus) e riem-se de todos os outros. O seu grande êxito foi ter levado a humanidade, ou ter criado na humanidade inteira uma civilização materialista, introduzindo o ateísmo.

Por que Satanás e os demônios têm tanto ódio pela Virgem Maria?

1) Porque ela sucedeu a Satanás no primeiro lugar que ele ocupava no mundo invisível e visível, como a primeira de todas as criaturas, depois de Deus, Uno e Trino, Criador.

2) Porque o “Fiat” dela tornou possível a Redenção, que deu um golpe certeiro no seu domínio, instaurado sobre a humanidade através do engano e do laço estendido aos nossos primeiros pais.

3) Outro motivo do seu ódio implacável contra a Virgem Santíssima provém do fato de que a humilhante derrota lhe foi infligida por uma frágil criatura de mulher, bem inferior a ele por natureza; isto foi, é e será eternamente um tormento tal que ultrapassa todos os tormentos da Terra, tormento incompreensível para nós, homens.

Depois da Santa Missa, o Santo Rosário é a arma mais mortífera para vencer e eliminar os inimigos de Deus, da Igreja e os nossos, que são os demônios. O Rosário tornou-se o remédio mais seguro contra todos os males do espírito e do corpo, os males pessoais e sociais, e isto foi confirmado pela Virgem Maria com fenômenos incontestados, que confundiram a loucura humana e mudaram o curso da História e o destino dos povos e das nações. Tudo isso não pode e não deve ser ignorado pelos pastores, pelos ministros e pelos fiéis cristãos, pois a evidência dos fatos ficou registrada na História e nunca será apagada.

Atualmente, tendo cessado a era das perseguições e martírios, o demônio, que não conseguiu destruir a Igreja pelas vias violentas, quer destruí-la por meio das heresias.

O conjunto de ensinamentos da Igreja — lógicos, sólidos, consequentes e admiráveis — parece-nos a coisa mais normal do mundo. Mas, para chegar até isto, foram indispensáveis, sob a divina inspiração do Espírito Santo, muito esforço, intensas polêmicas e pertinaz estudo. Por exemplo, foram necessários 10 séculos para que a realidade dos sacramentos instituídos por Nosso Senhor pudesse ser doutrinariamente expressa por uma definição clara e precisa. Por aí, pode-se medir quanta oração foi necessária, quanto trabalho e esforço empregado para exprimir essa admirável catedral de doutrinas, muitas delas apenas implícitas nos Evangelhos e na Tradição.

Não deve causar-nos estranheza o fato de, atualmente mais do que nunca, o demônio desejar introduzir pedras falsas nas fundações doutrinárias – é o caso das heresias – ou mesmo depreciar e suprimir os sacramentos a fim de tentar derrubar todo o magnífico prédio doutrinal da Igreja de Jesus Cristo.



_________Frei Francisco Bezerra do Nascimento, OFMConv.



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FONTE: blog do Frei Francisco – Texto revisto e destaques acrescidos.


terça-feira, 11 de fevereiro de 2020


VIRGEM IMACULADA EM LOURDES: O TRIUNFO DA IMACULADA CONCEIÇÃO

(Foto: blog Pale Ideas)

Pouco menos de quatro anos da proclamação do dogma da Imaculada Conceição da Beatíssima Virgem Maria por Sua Santidade o Papa Pio IX, através da bula “Ineffabillis Deus” (traduzindo-se do latim: “Deus Inefável”), no dia 8 de Dezembro de 1854, “o inefável Deus” abriu mais uma vez seu magnânimo Coração à humanidade pecadora, permitindo que Àquela que gerou em suas entranhas virginais seu Filho Unigênito, Àquele que nem os céus puderam conter, viesse como a confirmar o que a Igreja proclamara, ou como diria mais tarde o Santo Padre Papa Pio XII: “'O que em Roma, pelo seu magistério infalível, o sumo pontífice definia, a Virgem Imaculada Mãe de Deus, a bendita entre as mulheres, quis, ao que parece, confirmá-lo por sua boca, quando pouco depois se manifestou por uma célebre aparição na gruta de Massabielle'. Certamente, a palavra infalível do pontífice romano, intérprete autêntico da verdade revelada, não necessitava de nenhuma confirmação celeste para se impor à fé dos fiéis. Mas com que emoção e com que gratidão o povo cristão e seus pastores não recolheram dos lábios de Bernardete essa resposta vinda do céu: 'Eu sou a Imaculada Conceição'!1

Essa foi a sensação que se verificava entre os católicos que tomavam conhecimento da nova aparição da Santíssima Virgem Imaculada, também na França, mas agora em uma cidade situada às margens do rio Gave, Lourdes, hoje mundialmente conhecida e que atrai milhões de peregrinos pelos extraordinários acontecimentos que se realizaram, e ainda se realizam, por meio da Medianeira de todas as Graças.

Não foi diferente a reação de Santa Catarina Labouré ao tomar conhecimento das aparições: É a mesma!, e mais tarde, em correspondência confidencial à sua Superiora, Irmã Dufès, fez a seguinte reflexão: Quando a Santíssima Virgem apareceu a Bernadette, disse-lhe: Eu sou a Imaculada Conceição. Vê-se logo que é a nossa.2

A propósito, a imagem da Virgem da Acolhida existente na Paróquia de Lourdes (foto ao lado), já na época das aparições, depois identificada por Santa Bernadette Soubirous como parecida à Senhora que lhe aparecia na gruta de Massabiele, lembra muito a Virgem Imaculada Nossa Senhora da Medalha Milagrosa. Apresenta a Virgem Maria sobre meia esfera, pisando na serpente e com os braços estendidos.

Pois bem.

Foram dezoito as aparições da Mãe de Deus, em Lourdes, a Santa Bernadette, todas no ano de 1858: a 1ª no dia 11 de fevereiro, a 2ª no dia 14 de fevereiro, a 3ª no dia 18 de fevereiro, a 4ª no dia 19 de fevereiro, a 5ª no dia 20 de fevereiro, a 6ª no dia 21 de fevereiro, a 7ª no dia 23 de fevereiro, a 8ª no dia 24 de fevereiro, a 9ª no dia 25 de fevereiro, a 10ª no dia 27 de fevereiro, a 11ª no dia 28 de fevereiro, a 12ª no dia 1º de março, a 13ª no dia 2 de março, a 14ª no dia 3 de março, a 15ª no dia 4 de março, a 16ª no dia 25 de março (Festa da Anunciação, quando a Virgem revelou seu nome), a 17ª no dia 7 de abril, e a 18ª e última aparição, no dia 16 de julho (Festa de Nossa Senhora do Carmo).

Cada aparição traz uma mensagem e tem seu valor mariano e teológico, entretanto, destacaremos apenas algumas que julgamos se destacarem sobre as demais.


A primeira Aparição se deu em 11 de Fevereiro de 1858, numa fria manhã de quinta-feira, por volta do meio-dia, tendo Bernadette ido à procura de gravetos com suas companheiras Toinette (irmã) e Jeanne Abadie (sua vizinha). Após chegarem às margens do rio Gave, onde havia na parede rochosa uma gruta, conhecida pelo nome de Massabiele, as duas companheiras da Vidente logo entraram na água a fim de atravessar o canal, mas Bernadete exitou haja vista as diversas recomendações de sua mãe, por causa da asma. Entretanto, terminou abaixando-se, e após tirar os sapatos e começar a tirar as meias, ouviu um forte barulho como se fosse “um pé de vento”.

Tendo olhado para as árvores, constatou que os galhos e as folhas não se mexiam (não balançavam), dando continuidade à retirada das meias quando o barulho se repetiu, e ao olhar ao redor, viu que brilhava uma luz dentro da gruta, num buraco acima dos ramos de uma roseira brava. Dentro da luz havia “uma jovem maravilhosa, vestida de branco com as mãos estendidas em acolhimento, como a chamá-la. Trazia um longo cinto azul na cintura, um véu transparente sobre os cabelos longos, e sobre cada pé descalço havia uma rosa dourada”.

Bernadette ficou estupefata, parecia-lhe um sonho, esfregou os olhos, mas aquela figura e aquele sorriso acolhedor não desapareciam. Depois, assim relatou a visão:

Meti a mão no bolso e encontrei o Terço. Queria fazer o sinal-da-cruz, mas não pude levantar a mão à testa. O espanto apossou-se de mim mais fortemente, a minha mão tremia. A Senhora fez o sinal-da-cruz. Então tentei pela segunda vez, e consegui. Logo que fiz o sinal-da-cruz, a grande comoção que sentia desapareceu. Pus-me de joelhos e rezei meu Terço na presença da linda Senhora. Ela fazia passar pelos dedos as contas do rosário que tinha nas mãos, mas não mexia os lábios. Quando acabei o Terço, ela fez-me sinal para me aproximar. Mas não ousei. Então, desapareceu de repente”.

Após aquele encontro foi em direção às companheiras, e teve que responder o motivo de ter ficado de joelhos, rezando por tanto tempo. Mas suas companheiras nada viram e, ao chegarem em casa, contaram tudo aos pais, tendo a santa Vidente sido duramente repreendida, e impedida de retornar à gruta.
Santa Bernadette Soubirous, a vidente.


A segunda aparição se deu no domingo subsequente, dia 14 de Fevereiro de 1858, aproximadamente no mesmo horário. Nesta aparição se destaca a atitude da Menina ao levar consigo uma garrafinha de água benta para aspergir sobre a aparição. Após a reza do Terço, apareceu-lhe a Santíssima Virgem, e Bernadette assim narra o ocorrido: Então comecei a jogar água benta nela, dizendo que, se vinha da parte de Deus, que permanecesse; se não, que fosse embora; e me apressava sempre a jogar-lhe água. Ela começou a sorrir, a inclinar-se. Mais água eu jogava, mais sorria e girava a cabeça, e mais a via fazer aqueles gestos. Eu então, tomada pelo temor, me apressava a aspergi-la mais, e assim o fiz até que a garrafa ficou vazia. Quando terminei de rezar meu terço, Ela desapareceu e não me disse nada. Nós nos retiramos para assistir às vésperas.

As primeiras palavras da Virgem Imaculada a Santa Bernadette só ocorreu na terceira aparição, 18 de Fevereiro de 1858 (quinta-feira), quando apresentou um papel para que Nossa Senhora escrevesse seu nome e o que desejava, sorrindo respondeu a Virgem: Não é necessário, e mais adiante, Quer ter a bondade de vir aqui durante 15 dias? Diante da resposta afirmativa da Vidente, acrescentou: Não prometo tornar-te feliz neste mundo, mas no outro.

A quarta aparição foi marcada pelo silêncio, mas na quinta aparição a Santa Virgem ensinou à Bernadette uma oração somente para ser rezada por ela, nunca foi revelada. Na oitava aparição, a Vidente repetiu às pessoas que se encontravam próximas à gruta as palavras da Mãe de Deus: Penitência! Rezem a Deus pela conversão dos pecadores, pedindo ainda a Santa um ato de penitência: Vai beijar a terra em penitência pelos pecadores, tendo todos ficado muito impressionados com a mensagem.

Na nona aparição a afluência de pessoas já era grande (aproximadamente 300 pessoas), tendo nesta aparição do dia 25 de Fevereiro de 1858 (quinta-feira) a Virgem Santa dito à menina que bebesse e banhar-se na água da fonte, Mas, como não a via, fui beber no Gave. Ela me disse que não era ali, e me fez um sinal com o dedo para ir à gruta, mostrando-me a fonte. Eu fui, mas só vi um pouco de água suja. Parecia lama, e em tão pequena quantidade, que com dificuldade pude colher um pouco no côncavo da mão. Eu me pus a arranhar a terra, até poder colhê-la, mas três vezes a joguei fora. Foi só na quarta vez que pude bebê-la, de tal maneira estava suja, e ainda ordenado para que comesse a grama da gruta: Ela me disse para comer da erva que se encontra no mesmo local onde eu fui beber. Foi só uma vez, ignoro por quê.

A décima aparição, no dia 27 de Fevereiro de 1858 (sábado), foi marcada pelo gesto de Bernadette: caminhou por 15 minutos de joelhos e beijando o chão, recomendando que a multidão que ali se encontrava (800 pessoas), repetissem como ato de penitência. A partir daquele dia, a pedra sagrada e o chão da gruta de Massabielle passaram a ser beijados por pessoas do mundo inteiro.

Na décima terceira aparição, dia 2 de Março de 1858 (terça-feira), a quantidade de pessoas que acorriam à gruta passava de 1600, e a Virgem se dirige à Vidente, dizendo: Vai dizer aos sacerdotes que venham aqui em procissão e construam uma capela.

Somente na décima sexta aparição – na manhã do dia 25 de Março de 1858 (Festa da Anunciação) – a Mãe de Deus revela seu nome à Santa: Depois dos quinze dias, eu lhe perguntei de novo seu nome, três vezes seguidas. Ela sorria sempre. Por fim ousei uma quarta vez, e foi então que ela, com os dois braços ao longo do corpo [como na Medalha Milagrosa], levantou os olhos ao Céu e depois me disse, juntando as mãos na altura do peito, que ela era a Imaculada Conceição, ou no dialeto local: Que soy era Immaculada Counceptiou.

As Aparições da Virgem Imaculada a Santa Bernadette (Foto: Heraldos del Evangelio)

Santa Bernadette, porém, não conhecia e não compreendia o significado desse nome, e falou decepcionada: Mas então você não é a Virgem Maria?, vendo-A desaparecer, entristecida se dirigiu ao pároco, Padre Peyramale, que ao questioná-la a respeito da identidade da Aparição, se era Nossa Senhora, recebeu como resposta: Eu creio que não, Padre Vigário. Ela me disse que é a Imaculada Conceição.

Diante da pureza, ingenuidade e simplicidade da resposta, o Pe. Peyramale estremeceu, empalideceu e não pôde conter as lágrimas, e a partir de então não mais duvidou daquela humilde camponesa, semianalfabeta, que não conhecia o sentido daquelas palavras da Virgem Maria, cujo dogma havia sido proclamado quase quatro anos antes.

Ainda ocorreram mais duas aparições. Na penúltima houve o “milagre do círio” (chama da vela que não queimou a Vidente, embora tenha passado 15 minutos entre suas mãos), e a última se deu no dia da Festa de Nossa Senhora do Carmo, 16 de Julho de 1858, tendo Bernadette se ajoelhado à beira do rio Gave e diante da gruta rezado o Terço, quando, de súbito, tendo seu rosto se iluminado, declarou: Sim, sim, Ela está lá e nos sorri por detrás da cerca!..., e após a longa aparição dessa data, a santa Vidente afirmou: Jamais a vi tão bela!, e logo depois, Nunca mais a verei....


Assim se deram as aparições da Virgem Imaculada em Lourdes, e da fonte donde até hoje brota água cristalina e inúmeras graças que fazem de seu Santuário um dos mais visitados do mundo, senão o mais visitado.

As relações entre o Santuário de Lourdes e o da Capela da rue du Bac em Paris, são muitas, ambos ligados por um traço comum: a Imaculada Conceição da bem-aventurada Virgem Maria.

Sua festa litúrgica ocorre no dia 11 de Fevereiro de cada ano.

Concluímos com a oração composta pelo Papa Pio XII à Virgem Imaculada Nossa Senhora de Lourdes:

Dóceis ao convite de vossa voz maternal, Ó Virgem Imaculada de Lourdes, acorremos a vossos pés junto da humilde gruta onde vos dignastes aparecer para indicar aos que se extraviam, o caminho da oração e da penitência, e para dispensar aos que sofrem, as graças e os prodígios da vossa soberana bondade.

Recebei, Rainha compassiva, os louvores e as súplicas que os povos e as nações oprimidos pela amargura e pela angústia elevam confiantes a vós. Ó resplandecente visão do paraíso, expulsai dos espíritos – pela luz da fé – as trevas do erro. Ó místico rosário com o celeste perfume da esperança, aliviai as almas abatidas. Ó fonte inesgotável de água salutar com as ondas da divina caridade, reanimai os corações áridos.

Fazei que todos nós, que somos vossos filhos por vós confortados em nossas penas, protegidos nos perigos, sustentados nas lutas, nos amemos uns aos outros e sirvamos tão bem ao vosso doce Jesus que mereçamos as alegrias eternas junto a vosso trono no céu.
Amém.




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Bibliografia e outras fontes consultadas:

CASTRO, Padre Jerônimo Pereira de. “Santa Catarina Labouré e a Medalha Milagrosa”, Editora Vozes, 2ª edição/1951.

DAFAUR, Luis Eduardo. “Lourdes e Suas Aparições Esperança para Quem Precisa de Socorro”, Editora Petrus, São Paulo/2009.

BÖING, Mafalda Pereira. “Lourdes: Fontes de Graças”, Edições Loyola, São Paulo/2005.

Carta Encíclica “Le Pèlerinage de Lourdes Sobre Centenário das Aparições da SS. Virgem em Lourdes”, do Papa Pio XII, Roma em 2 de Julho de 1957, Festa da Visitação da Santíssima Virgem.

Blog “Lourdes e Suas Aparições” (https://lourdes-150-aparicoes.blogspot.com.br/)



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1 Carta Encíclica “Le Pèlerinage de Lourdes Sobre Centenário das Aparições da SS. Virgem em Lourdes”, de 2 de Julho de 1957, Lourdes e a Santa Sé, §6 (excerto).

2 cf. CASTRO, Padre Jerônimo … Santa Catarina Labouré …., Cap.IV, pp. 111-112.