Ó MARIA CONCEBIDA SEM PECADO, ROGAI POR NÓS QUE RECORREMOS A VÓS!

segunda-feira, 16 de abril de 2018

A Virgem Imaculada e a Medalha Milagrosa


SANTA CATARINA LABOURÉ: UM SONHO PROFÉTICO


Fotografia autêntica de Santa Catarina Labouré, tirada em vida, em 1876, pouco antes de
seu falecimento
 
“A primeira, embora não a única ambição de Catarina Labouré, em Fain, era viver em 'união com Deus'. Mas a sua alma generosa alimentava uma aspiração superior e profunda, desde a primeira comunhão: a de consagra-se a Deus na vida religiosa. E suspira pelo dia em que pudesse trocar os trabalhos do campo, pelo serviço exclusivo de Deus, a que um secreto apelo a levava.

Que comunidade seria a sua? Ela ignorava. Um fato singular deu-lhe a solução do problema. Ela mesma o contou, no fim da vida, como um sonho, que teria tido aos dezoito anos de idade. Este sonho tem algo de visão intelectual, pois o quadro era composto de elementos vários, inesperados e desconhecidos.

Ela pensava estar ajoelhada na capela da Virgem, como era de seu costume, quando um padre idoso, paramentado, apareceu e começou a celebrar a Missa. Cada vez que se voltava para dizer o Dóminus vobíscum1, o seu rosto expandia grande bondade, e o olhar fixava-se sobre ela.

Como tudo se passa depressa nos sonhos, a Missa acabou logo, e o padre, voltando para a sacristia, lhe fez sinal que o seguisse. Mas, amedrontada, como nos pesadelos, apesar de tudo ser tão doce e suave nesse sonho, Zoé2 apressou-se a fugir da igreja.
São Vicente de Paulo, co-fundador das Filhas de Caridade

Perturbada, antes de voltar para casa, foi tratar de uma pobre mulher doente. Eis que o velho padre a seguiu até o quarto da enferma, conservando-se atrás, e lhe disse:
'É uma boa obra tratar dos doentes. Hoje tu me fojes… mas um dia tu me procurarás… Deus tem desígnios sobre ti. Não te esqueças!'.

E Zoé despertou numa alegria espiritual radiante.

Este sonho foi o primeiro dos sinais sensíveis do sobrenatural, que conhecermos em Zoé Labouré, e realizou-se completamente em breve tempo. Na ocasião ninguém soube de coisa alguma, porque só cinquenta anos mais tarde, em 1875 ou 76, já velha religiosa, ela mesma contou esse fato maravilhoso e o epílogo, que teve, à sua irmã Maria Luísa, então doente na Casa-Mãe. Fez esta narrativa na presença da Irmã Cosnard, sub-assistente, e esta comunicou ao Processo (de canonização) todas as minúcias deste estranho fenômeno. A memória da Irmã Catarina, conservara bem nítida a impressão de seu sonho e de sua realização3.

Naquela manhã, naturalmente, Zoé devia ter despertado perplexa. Quem seria aquele padre de semblante tão amável? Que significavam as suas palavras? Quais seriam os desígnios de Deus sobre ela? Não sabia responder a nenhuma destas perguntas.

É pouco provável que ela tenha segredado estas dúvidas a seu confessor, o vigário de Moutiers. A sua excessiva timidez, o pudor sobre seus segredos espirituais, a forçaram, por certo, a calar-se. E como era dotada de espírito positivo, procurou vencer as impressões, convencendo-se a princípio de que 'tudo não fora mais do que um sonho'.

“Um belo dia, bem informada pela cunhada, Zoé foi visitar um hospício de Caridade, dirigido pelas Filhas de S. Vicente de Paulo, na margem direita do rio que banha Châtillon, na Rua Haute-Juiverie. Diante da porta principal notou uma estátua de S. Vicente de Paulo, com dois meninos sob o manto, indicando que aquela casa era um desses asilos em que a miséria e a fraqueza vão encontrar socorro.
S. Vicente de Paulo, trazendo sob o manto (batina)
uma criança pobre

Recebida pela porteira e introduzida no parlatório, pede que chame a superiora. Apenas assentada, levantando os olhos, percebe um quadro pendurado na parede. Zoé, admirada, descobre que o Padre, ali representado, é o mesmo que vira em sonho outrora, em Fain. 'É ele mesmo!' convenceu-se ela; e lembra-se da fronte, dos olhos, do grande nariz e dos lábios que lhe falaram tão bondosamente. Recorda-se dos seus olhares durante a Missa e do insistente sorriso, quando lhe dizia: 'Hoje tu me foges, mas um dia tu hás de me procurar. Deus tem desígnios sobre ti. Não te esqueças.'

Zoé ficou presa diante desse quadro, confusa, grandemente comovida. Parecia-lhe estar envolvida numa atmosfera sobrenatural nesse parlatório. Mais uma vez, ei-la fora da terra.

Entra uma Irmã. Não era a superiora, mas uma auxiliar, a jovem Irmã Francisca Vitória Sejóle, que em breve vai demonstrar uma perspicácia espantosa sobre a vocação dessa humilde camponesa. Depois das primeiras saudações, Zoé não se conteve mais e perguntou:

Minha Irmã, quem é esse padre pintado neste quadro?

Não sabeis minha filha? É o nosso Pai S. Vicente de Paulo.

O coração da Labouré teve um arrebatamento: sentiu que a sua vocação estava decidida. Sentiu a delícia da paz iluminando-lhe a alma e dissipando todas as dúvidas. Mas a Irmã Sejóle nada percebeu do que se passava no íntimo de sua visitante. Com o semblante sério, esta contou à Irmã a sua história e o seu desejo.

Na próxima confissão, na igreja paroquial de Châtillon, Zoé declarou ao vigário, Padre Prost, o seu sonho singular e a confirmação comovente, que teve olhando para o quadro do parlatório do hospício.
'Sim, minha filha, respondeu o Padre, eu creio que esse padre, que vos apareceu em sonho, é S. Vicente de Paulo, e que ele vos chama para ser Irmã de Caridade.'”




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FONTE: CASTRO, Pe. Jerônimo P. de. “Santa Catarina Labouré e a Medalha Milagrosa”, Editora Vozes, 1951, Cap. II, pp. 42 a 44 e de 53 a 55 (texto revisto e atualizado)

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1 “Dóminus vobíscum” = “O Senhor esteja convosco”.

2 “Zoé” = era um carinhoso apelido de família dado à Catarina Labouré.

3 L. Misermont, L'âme de la B. Catherine Labouré. No hospício de Moutiers-Saint-Jean há um belo quadro de S. Vicente de Paulo. Mas, durante os Ofícios, corriam a cortina que ocultava o altar, de modo que esse quadro ficava coberto. Zoé nunca tinha olhado para ele. – Data do tempo de S. Vicente a fundação desse hospício do Santo Salvador. Foi construído pelos ricos abades de Chandenier, dos quais Luis se fez Padre da Missão. Diz uma tradição que S. Vicente foi a Moutiers para escolher o local do hospício. (St. Vincent de Paul, t. I, p. 345).